terça-feira, 27 de março de 2012

Querida Música,


A pessoa escrevia no quase escuro. Nos fones Canto de Ossanha. Lá fora, grãos do Saara perambulavam pelas ruas da periferia. Os mesmos grãos do tempo de Cleópatra. Rearranjados, itinerados, sencientes, nanosóis.

Talvez a pessoa não entendesse a letra. Talvez tivesse tido acesso a alguma tradução mecânica. Mas se deixava levar... e a música fluía tropicalmente-são-franciscana-de-açúcardente. (ar ardente). Ente sonoro.
E querido.

Querida Música,

eu te amo nas curvas de um violino, na curvatura planetária de um surdo.
Nas linhas retas que tremem e dançam e sobrevoam as casas, as asas do braço
do violão

eu te amo na voz. da fonte à foz. e me banho no teu oceano-som e vibro entre fogueira
e faísca com minha alma plugada num contra-baixo, com meus pés sambando em
outra dimensão.

Querida Música,

Ele coçava a barba rapidamente e o lápis voltava à folha, foguete, fogueira de sentimentos
furando o muro da ditadura de si mesmo.

Ou ela se despia das vestes longas como quem solta sua pele. E a liberdade nua (mas presa à casa pequena) cai sobre a pele arrepiada com a possibilidade de se ter amor. Desfila na avenida do corpo um samba-enredo do tamboração. E nua tecia palavras-flores-que-voam e encontram outras pessoas-palavras nos dedos nos teclados de internet e celulares.

E a revolução decola.

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